Material técnico

Guia de Patologia de Sementes

Como entender o laudo de sanidade, o que cada teste do laboratório mostra, os padrões oficiais e por que a análise importa — referência para a leitura do resultado.

Última revisão: agosto de 2026
Aviso legal — este material é uma referência técnica compilada a partir de fontes científicas e da legislação vigente, e não substitui o laudo oficial emitido pelo laboratório nem a recomendação individualizada de um Engenheiro Agrônomo habilitado. Os níveis de tolerância sanitária são atualizados periodicamente pelo MAPA/SDA — confirme sempre a versão vigente da RAS e das Instruções Normativas antes de decisões de certificação ou comercialização.
Dica: no celular, gire a tela na horizontal para visualizar melhor as tabelas.
1 Entendendo seu laudo
O laudo de sanidade do LAMAM começa com as tabelas quantitativas de incidência — resultado do teste de Blotter e do BDA com semente desinfestada. Cada um enxerga a semente de um jeito diferente, e entender essa diferença é a chave para ler o laudo.
Blotter — o que está na semente (infestação)

No teste de Blotter (papel de filtro em caixa gerbox), as sementes são incubadas por 10 a 14 dias (20–25 °C, com alternância de luz e escuro) e depois avaliadas em lupa e microscópio. É um levantamento amplo: revela os fungos associados à semente — em geral os patógenos que a estão infestando, ou seja, presentes na superfície ou junto ao tegumento. O resultado é a incidência (%) de cada fungo.

Limitação: fungos de crescimento rápido (como o Trichoderma) podem mascarar patógenos mais lentos — o tempo de leitura é crítico. O blotter também não detecta bactérias e não confirma a espécie.
Blotter test de soja em gerbox
Blotter — soja: fungos esporulando sobre as sementes
Blotter test de feijão em gerbox
Blotter — feijão: colônias sobre o papel umedecido
Blotter test de milho (semente tratada) em gerbox
Blotter — milho de semente tratada (fungicida)
BDA com semente desinfestada — o que está dentro da semente (infecção)

Aqui as sementes passam antes por assepsia (desinfestação superficial) e só então são plaqueadas em meio BDA (batata-dextrose-ágar). A assepsia elimina a microbiota da superfície, de modo que o que cresce vem de dentro da semente: são os patógenos que a estão infectando, já estabelecidos no tecido. O resultado também sai em incidência (%).

Por que a diferença importa: um patógeno detectado no BDA desinfestado (infecção interna) é, em regra, mais grave do que o mesmo fungo apenas no blotter (infestação superficial): por estar dentro da semente, ele escapa do tratamento de superfície, tem maior potencial de transmissão à plântula e de causar doença no campo.
Sementes de soja desinfestadas em meio BDA
BDA — soja: sementes desinfestadas e colônia isolada
Sementes de feijão desinfestadas em meio BDA
BDA — feijão: crescimento a partir da semente
Sementes de milho desinfestadas em meio BDA
BDA — milho: colônias emergindo das sementes
Nos ensaios de Blotter e BDA com semente desinfestada, a triagem contempla mais de 30 gêneros de fungos associados a sementes; o laudo, porém, relaciona apenas os efetivamente detectados na amostra. A ausência de um gênero no laudo significa que ele não foi detectado — não que deixou de ser avaliado.
Métodos específicos para determinados patógenos

Além do levantamento geral (Blotter e BDA), há métodos específicos, dirigidos a patógenos determinados, também realizados na rotina. Abaixo, os mais comuns:

NEON (meio Ágar-bromofenol) — meio semi-seletivo usado na detecção de Sclerotinia sclerotiorum (mofo branco), patógeno PNQR de tolerância zero (ver seção 2). É realizado para soja, feijão e girassol. As sementes são incubadas sobre o meio e o resultado é registrado como ausência ou presença.

Meio NEON (ágar-bromofenol) com sementes de soja
NEON — soja no meio ágar-bromofenol
Meio NEON (ágar-bromofenol) com sementes de feijão
NEON — feijão no meio ágar-bromofenol

CNS e MT (meios semi-seletivos para bactérias) — faz-se a lavagem das sementes e a suspensão é plaqueada, em diluições. Cada meio favorece a sua bactéria-alvo: CNSCurtobacterium flaccumfaciens pv. flaccumfaciens (murcha-de-curtobacterium), realizado para soja e feijão; MT (Milk-Tween) → Xanthomonas axonopodis pv. phaseoli (crestamento bacteriano comum), realizado apenas para feijão. O resultado sai em ausência ou presença e também pode ser quantitativo (contagem de colônias em UFC).

Meio CNS com colônias amarelas de Curtobacterium
CNS — suspensão de lavagem: colônias amarelas de Curtobacterium
Meio MT Milk-Tween com colônias de Xanthomonas e halo de hidrólise
MT (Milk-Tween): colônias de Xanthomonas com halo de hidrólise

Rolo de papel — as sementes são incubadas em rolo de papel úmido, combinando a avaliação da germinação com a observação de sintomas na plântula (lesões e tombamento, o damping-off) — evidenciando a transmissão do patógeno da semente para a plântula. É um dos métodos indicados para a detecção de Colletotrichum lindemuthianum (antracnose do feijão). O resultado é quantitativo (percentual de plântulas afetadas).

2 Padrões oficiais — PNQR (Portaria SDA nº 3/2004)
As PNQR (Pragas Não Quarentenárias Regulamentadas) são os patógenos com nível de tolerância oficialmente definido para a comercialização de sementes. Quando o patógeno detectado é PNQR com tolerância 0/lote, qualquer detecção reprova o lote para certificação.
0/lote = tolerância zero valor numérico = nº máximo tolerado
CulturaPraga (PNQR)Doença ou estrutura avaliadaTolerância
AlgodãoFusarium oxysporum f.sp. vasinfectumMurcha de Fusário0/lote
Colletotrichum gossypii var. cephalosporioidesRamulose0/lote
Xanthomonas axonopodis pv. malvacearumMancha angular0/campo
Sclerotinia sclerotiorum **Mofo branco0/lote
Arroz (sequeiro)Pyricularia griseaBrusone5/lote
Bipolaris oryzaeMancha parda5/lote
TrigoBipolaris sorokinianaMancha marrom ou podridão comum da raiz5/lote
Stagonospora nodorumMancha da gluma1/lote
Drechslera tritici-repentisMancha amarela5/lote
Xanthomonas campestris pv. undulosaEstria bacteriana1.000 UFC*/3.000 sementes
FeijãoColletotrichum lindemuthianumAntracnose0/lote
Xanthomonas axonopodis pv. phaseoliCrestamento bacteriano comum0/lote
Sclerotinia sclerotiorum **Mofo branco0/lote
Fusarium oxysporum f.sp. phaseoliMurcha de Fusário0/lote
Fusarium solani f.sp. phaseoliPodridão radicular seca0/lote
SojaSclerotinia sclerotiorum **Mofo branco0/lote
Heterodera glycines ***Nematoide de cisto da soja0/lote
GirassolSclerotinia sclerotiorum **Mofo branco0/lote
* UFC = Unidade Formadora de Colônia  |  ** avaliado como escleródio/500 g  |  *** avaliado como torrão com cisto/500 g  |  Fonte: MAPA — Portaria SDA nº 3, de 5 de janeiro de 2004.
Em revisão: a lista de PNQR é atualizada periodicamente pelo MAPA/SDA — inclusive no âmbito da harmonização fitossanitária do Mercosul — podendo incorporar novas culturas e patógenos. Confirme sempre a versão vigente junto ao MAPA/SDA antes de decisões de certificação.
3 Por que a sanidade importa e para que serve a análise
A semente é o insumo de maior valor agregado da lavoura — mas pode carregar, de forma latente e quase sempre assintomática, os patógenos que originam os primeiros focos de doença no campo. O teste de sanidade funciona como a "medicina preventiva" da cultura: detecta o problema antes que ele vire epidemia.
Cerca de 90% das culturas usadas na alimentação humana são propagadas por semente. A presença de inóculo pode reduzir o rendimento em torno de 20%, além de causar falhas de estande e elevar o custo de produção — por isso a leitura do laudo orienta o tratamento e a decisão de uso do lote.
3.1 Os quatro grupos de patógenos
FUNGOSMaior nº de espécies. De campo (Phomopsis, Colletotrichum) ou de armazenamento (Aspergillus, Penicillium).
BACTÉRIASPermanecem latentes e em baixa população — semente quase sempre sem sintoma visível.
VÍRUSPrecisam de alta estabilidade para sobreviver ao processamento. Transmissão geralmente baixa.
NEMATOIDESMenor nº, mas alto risco de disseminação a longa distância via comércio de sementes.
Atenção: a maioria das sementes infectadas não apresenta sintoma visível. A ausência de sinais a olho nu não garante sanidade — só o teste de laboratório confirma.
3.2 Para que serve a análise de sanidade
FinalidadeO que a análise responde
Decidir o uso do lotePlantar, tratar ou descartar — com base em quais patógenos há e em que incidência.
Certificação e comercializaçãoVerificar a conformidade com os limites de PNQR para a produção e a venda de sementes.
Avaliar a eficácia de tratamentosComparar a sanidade antes e depois de um tratamento de sementes (produto químico ou biológico) para medir o controle obtido.
Escolher o produto certoDirecionar o princípio ativo mais eficaz para o(s) patógeno(s) efetivamente identificado(s).
Diagnosticar falhas de estandeInvestigar baixa germinação, tombamento e falhas de emergência com origem na semente.
Evitar disseminar patógenosImpedir que sementes levem patógenos a novas áreas ou regiões produtoras.
4 Dano econômico e limiar de inóculo
Patógenos que vêm na semente causam prejuízo real — em produtividade, qualidade e custo. Mas quanto de doença uma semente infectada provoca no campo não segue uma regra única: depende do patógeno, da cultura e do clima. Às vezes menos de 0,01% de sementes infectadas já bastam para deflagrar uma epidemia; em outros casos, convive-se com vários por cento sem grande dano. É o chamado limiar de inóculo (Schaad, 1988) — e a tabela abaixo reúne, por patossistema, o que a literatura mediu.
Limiar e dano por patossistema
Cultura — patógenoLimiar ou dano documentadoFonte
Brássicas — podridão negra (Xanthomonas campestris pv. campestris)Basta 0,01% de sementes infectadas para deflagrar a podridão negra no campo; em mudas transplantadas, o limiar exigido cai para 0,004%.Schaad, Sitterly & Humaydan (1980); Roberts, Brough & Hunter (2007)
Tomate — cancro bacteriano (Clavibacter michiganensis subsp. michiganensis)De 0,01 a 0,05% de sementes contaminadas já iniciam a epidemia; perdas de até 80% no campo — praga quarentenária na UE.Chang et al. (1991) e Gitaitis et al. (1991), apud Theodoro & Maringoni (2000); Méndez et al. (2020)
Soja — antracnose (Colletotrichum truncatum)Cerca de 90 kg/ha perdidos a cada 1% de incidência nas vagens (r = −0,85); perdas de 16 a 26% nos EUA, 30 a 50% na Tailândia e até 100% na Índia.Dias et al. (2016); Backman, Williams & Crawford (1982); Hartman, Sinclair & Rupe (1999)
Soja — podridão de sementes (Phomopsis, Diaporthe)Infecção de até 76% das sementes, com a germinação caindo a 18–97%; o atraso de colheita reduz ~10% o peso e ≥50% a germinação (dano de qualidade fisiológica).Li et al. (2017); Malvick (1997); Sinclair (1993)
Feijão — antracnose (Colletotrichum lindemuthianum)70 a 80% das sementes infectadas transmitem a antracnose à plântula, que ainda desenvolve menor sistema radicular.Rey et al. (2009)
Feijão — crestamento bacteriano comum (Xanthomonas axonopodis pv. phaseoli)Reduções de 10 a 70% na colheita sob ataque natural (no Brasil, sem estimativa nacional consolidada de perdas).Diaz (2000); Rava & Sartorato (1994)
Arroz — brusone (Pyricularia oryzae)Perda de até 47,8% na massa de grãos sob alta severidade nas panículas; 15 a 44% em condições gerais.Prabhu et al. (2003); Prabhu, Faria & Carvalho (1986)
Algodão — ramulose (Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides)Lavouras com incidência acima de 5% elevam fortemente a infecção das sementes (correlação entre inóculo no campo e nas sementes).Araújo et al. (2009); Araújo (2008, tese ESALQ/USP)
Trigo — mancha marrom ou podridão comum (Bipolaris sorokiniana)Incidência média de 15,2% nos lotes (99,1% positivos, máx. 60%); o tratamento de sementes controla a transmissão até ~44% de incidência.Goulart (1998); Forcelini (1992)
Milho — podridões (Stenocarpella spp.)A semente infectada é a principal fonte de inóculo primário; as perdas específicas, porém, ainda não foram quantificadas.Costa, Cota & Silva (2013); Casa, Reis & Zambolim (2006)
A leitura correta
Na prática, o mesmo percentual de infecção significa coisas muito diferentes conforme o patógeno: uma detecção mínima de Clavibacter ou da podridão negra já pode condenar o lote (limiar de 0,01 a 0,05%), enquanto 15% de Bipolaris sorokiniana é rotina manejável. Por isso o laudo de sanidade deve ser lido à luz do patógeno e da cultura — nunca por uma estatística genérica.

5. Referências

MAPA — Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Portaria SDA nº 3, de 5 de janeiro de 2004 — níveis de tolerância sanitária (PNQR) para algodão, arroz, trigo, feijão, soja e girassol.
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