Material técnico

Como ler o seu laudo de nematoides

Este guia converte a densidade populacional do laudo num semáforo (baixo, médio, alto), como leitura orientativa do risco, não como diagnóstico.

Última revisão: julho de 2026

Antes de tudo: este guia é orientativo.

Os números abaixo dão uma noção do risco; não são ordem de tratar. A leitura muda com a cultivar, o tipo de solo, a época da coleta, o histórico da área, as outras espécies presentes e a chuva. Um mesmo número pode ser grave numa lavoura e inofensivo em outra.

O laboratório entrega a contagem. Quem decide o manejo é o agrônomo, olhando a área. A própria Sociedade Brasileira de Nematologia (2019) trata a classificação “alto/médio/baixo” como item opcional do laudo, a ser definida por cada laboratório conforme a cultura e a região.

Entendendo o seu laudo

O laudo lista apenas os gêneros encontrados na sua amostra. Não é uma lista fixa: se um gênero não aparece, é porque não foi detectado. A quantificação é feita por gênero; a espécie (sobretudo em Meloidogyne) é definida por PCR, à parte.

A amostragem determina o resultado. A análise só é representativa quando a coleta é feita corretamente e as amostras simples são bem homogeneizadas antes de formar a amostra composta. Por isso, a não detecção de um nematoide não garante a sua ausência na área: amostragem inadequada, população baixa e a época de coleta interferem na recuperação e na detecção do nematoide.

As contagens saem nas unidades do laudo do LAMAM: por 200 cm³ de solo e por 1 grama de raiz. É nessas unidades que as faixas desta página estão; dá para comparar direto, sem fazer cálculos.

Abaixo, todos os gêneros que o laboratório quantifica, agrupados pelo modo de parasitismo:

GrupoComo parasita Gêneros quantificados no laudo do LAMAM
EndoparasitasPenetram e vivem dentro da raizMeloidogyne spp. (galhas), Pratylenchus spp. (lesões), Radopholus spp.
Semi-endoparasitasA parte anterior penetra a raiz; a posterior fica para foraRotylenchulus spp. (reniforme), Tylenchulus spp. (citros)
EctoparasitasAlimentam-se de fora, com o estileteHelicotylenchus spp. (espiralado), Criconemoides spp. (anelado), Hemicycliophora spp., Paratrichodorus spp., Paratylenchus spp. (alfinete), Scutellonema spp., Tylenchorhynchus spp. (esguio), Xiphinema spp. (adaga)
Cistos e ovosNão parasitam; são fonte de inóculo no soloHeterodera glycines (cisto da soja): no laudo, cisto viável e cisto inviável.

A contagem de ovos (sobretudo no solo) pode ser de qualquer nematoide, inclusive de vida livre.
De vida livreNão parasitam a plantaAgrupados no laudo como “vida livre” (bacteriófagos, fungívoros, onívoros, predadores): indicadores de solo biologicamente ativo, não dano.

Cisto viável × inviável

No cisto da soja (Heterodera glycines), a fêmea fecundada retém os ovos no corpo e, ao morrer, sua cutícula endurece e escurece, formando o cisto (em média cerca de 200 ovos, podendo chegar a 500). Nem todo cisto no solo é infestação atual: o viável está túrgido e globular, cheio de ovos; o inviável fica vazio e colapsado, por eclosão dos ovos ou por parasitismo de fungos que atacam os ovos dentro do cisto.

Cisto viável (esquerda) e inviável (direita) — laboratório LAMAM
À esquerda, o cisto viável (túrgido); à direita, o inviável (colapsado).
Cistos de diferentes tamanhos e cores — laboratório LAMAM
Cistos variam em tamanho e cor conforme a idade.

Como diferenciar na prática

Ao estereomicroscópio: (1) forma/turgidez: o viável é globular e cheio, o inviável colapsa e achata; (2) cor é só indício: o escurecimento é o envelhecimento da cutícula, e um cisto marrom pode ainda estar cheio de ovos; (3) esmagamento é o critério definitivo: rompe-se o cisto e checa-se o conteúdo: ovos íntegros = viável; cavidade vazia = inviável.

Cisto viável rompido, ovos no interior
Cisto viável rompido — ovos no interior.
Cisto inviável, cavidade vazia ao toque da agulha
Cisto inviável — cavidade vazia ao toque da agulha.

Nematoides de vida livre

Nem todo nematoide do solo é fitoparasita. Os de vida livre se alimentam de bactérias, fungos, matéria orgânica ou de outros nematoides e não parasitam a cultura: sua abundância e diversidade são indicadores de um solo biologicamente ativo. No laudo têm caráter informativo, não representam problema fitossanitário e não se somam aos fitonematoides na avaliação de risco.

Quando pedir a identificação de espécie (PCR)

A rotina identifica por gênero. A PCR (espécie) entra quando o manejo depende dela: sobretudo para separar as espécies de Meloidogyne, já que a escolha de cultivar/porta-enxerto resistente é espécie-específica (soja, algodão, café, cana). Para o café, veja o tópico específico sobre galhas e PCR.

Culturas — faixas por semáforo

Cada cultura tem sua própria tabela de semáforo, na unidade do laudo. Compare o número da sua amostra com a faixa da cultura correspondente. Baixo e médio são orientativos; a faixa alta (“dano”) vem de estudo publicado (fonte no detalhe técnico de cada cultura).

Soja

Contagem no seu laudo (por 200 cm³ de solo). A faixa Alto é ancorada em dano publicado; Baixo e Médio são leitura orientativa do LAMAM. classificação orientativa

Nematoide BaixoMédio
atenção
Alto
dano provável
O que observar
Cisto Heterodera glycinesaté 5cistos/200 cm³5 a 10cistos/200 cm³acima de 10cistos/200 cm³10 cistos viáveis/200 cm³ já custaram cerca de 16% de perda, e em veranico até 1 cisto pesa.
Galhas Meloidogyne incognitaaté 100J2/200 cm³100 a 200J2/200 cm³acima de 200J2/200 cm³Plantas menores em reboleiras, com galhas nas raízes. Piora em solo arenoso; em solo mais argiloso o limiar é maior.
Lesões Pratylenchus brachyurusaté 100nematoides/200 cm³100 a 200nematoides/200 cm³acima de 200nematoides/200 cm³O mais comum no Cerrado. Raiz com lesões escuras; reboleiras de plantas fracas. Avalie também a lesão na raiz, não só o solo.
Reniforme Rotylenchulus reniformissem faixa nacionalacima de 2.000nematoides/200 cm³Menos comum em soja de MG. Não use o limite do algodão: em soja o risco vem com população bem maior.
Detalhe técnico e fontes
H. glycines: NDE de 2 a 5 cistos viáveis/100 cm³ (= 4 a 10/200 cm³) em ano favorável: 5 cistos custam cerca de 16% de perda; 10 cistos, 45%; 50 cistos, 70%. Em veranico, 1 cisto/100 cm³ já custou 15 a 16%. Meta de manejo: até 3/100 cm³. Atenção de unidade: a fonte contabiliza cistos VIÁVEIS, e não ovos+J2; a conversão entre as duas unidades é indireta, porque o número de ovos por cisto é variável (cerca de 200 em média). Confirmar em que unidade o laudo de cisto sai. Asmus & Andrade (2002).
M. incognita: em solo arenoso, 100 J2/100 cm³ (= 200/200 cm³) associam-se a perda de 10% ou mais em soja suscetível; em solo silte-franco o limiar sobe para 150/100 cm³ ou mais (Faske, Mueller & Gorny, 2021). O estudo clássico de microparcelas na Geórgia (Niblack, Hussey & Boerma, 1986) trabalhou com ovos de inóculo, e não com J2 extraídos: 31 ovos/100 cm³ já ficaram acima do limite de tolerância, com supressão de 53 a 82% da cultivar suscetível GaSoy 17 nessa densidade. A relação ajustada é log-linear (Y = 1,0 + 0,331·log₁₀Pi), não linear na densidade.
P. brachyurus: no solo, risco acima de 100/100 cm³ (Inomoto, 2015, ESALQ), critério institucional apresentado sem a equação nem o método de extração. Na raiz, cada 82/g corresponde a 1 saca/ha a menos (Franchini et al., 2014, Embrapa). O ensaio da Embrapa mediu a população na RAIZ em R3 e relatou correlação com a produtividade (r = −0,744): descreve tendência ao longo do ciclo, e não um gatilho de decisão em pré-plantio.
R. reniformis: 1.000 a 5.000/100 cm³ (= 2.000 a 10.000/200 cm³) para perda de 10% ou mais, solo de textura grossa a média, valores obtidos nos EUA (Faske et al., 2024).
M. javanica: os níveis de dano publicados para soja foram estabelecidos com M. incognita; a agressividade e a reação das cultivares diferem entre as duas espécies, de modo que o valor de uma não se transfere para a outra.

Milho

Contagem por 200 cm³ de solo, no plantio. classificação orientativa

Nematoide BaixoMédio
atenção
Alto
dano provável
O que observar
Lesões Pratylenchus zeaeaté 100nematoides/200 cm³100 a 200nematoides/200 cm³acima de 200nematoides/200 cm³Um dos que mais causam perda no milho. No Alto, vale planejar rotação com plantas não hospedeiras.
Galhas Meloidogyne incognitaaté 100J2/200 cm³100 a 200J2/200 cm³acima de 200J2/200 cm³Cada 200 J2/200 cm³ correspondem a 2 a 7% de grãos a menos, conforme o ensaio da colheita (Bowen et al., 2008).
Galhas Meloidogyne javanicasem faixaA literatura registra danos pouco expressivos e boa parte dos híbridos brasileiros como resistentes; a resposta varia com a cultivar e o solo, e por isso a população merece acompanhamento.
Detalhe técnico e fontes
P. zeae: nível de ação acima de 100/100 cm³ no plantio (Inomoto, 2015, ESALQ). A extensão da Geórgia (UGA C834) traz um valor parecido, mas em outra base: "200 ou mais" por 100 cm³ (= 400/200 cm³), e em amostra de fim de ciclo, não de plantio. As duas apresentam o número como nível de ação; o método de extração e a equação de perda não constam das publicações.
M. incognita: 2,2 a 7,0% de perda de grãos por 100 J2/100 cm³, em contagem feita na colheita (Bowen et al., 2008, EUA). Para contagem do ano anterior (pré-plantio), a mesma fonte estima 3,8 a 11,4%. O modelo é linear, mas a proporcionalidade foi imposta no ajuste (intercepto fixado em 1,0).
M. javanica: a revisão classifica o milho como pouco afetado pela espécie (Oliveira & Inomoto, 2023); entre 20 e 30% dos híbridos brasileiros são resistentes a M. javanica (Inomoto, 2015). O "200/200 cm³" que circula para P. brachyurus no milho refere-se, na origem, ao risco na SOJA da sucessão, e não ao milho.

Feijão

Contagem por 200 cm³ de solo. classificação orientativa

Nematoide BaixoMédio
atenção
Alto
dano provável
O que observar
Galhas Meloidogyne incognitasem faixaa partir de 5ovos+J2/200 cm³O dano começa com pouquíssimo nematoide. Em cultivar suscetível, trate população baixa já como risco.
Detalhe técnico e fontes
M. incognita: limite de tolerância de 2 a 3 ovos+J2/100 cm³ (= 4 a 6/200 cm³), Crozzoli et al. (1997), Venezuela. Na tabela, 5/200 cm³: o valor medido é 4 a 6, e arredondar para baixo mantém o alerta antes de a produção começar a cair. O limiar fica próximo do limite de detecção do laudo: no feijoeiro suscetível, a perda já se manifesta em densidades muito baixas.

Café

Contagem por 200 cm³ de solo. Cuidado: em café os números são os menos certos da literatura, e lavoura velha sofre com bem menos nematoide. classificação orientativa

Nematoide BaixoMédio
atenção
Alto
dano provável
O que observar
Galhas Meloidogyne exiguaaté 20J2/200 cm³20 a 80J2/200 cm³acima de 80J2/200 cm³Em lavoura com mais de 5 anos, trate qualquer detecção como atenção: ela sofre com população muito baixa.
Galhas Meloidogyne paranaensispresençaÉ a mais agressiva por planta: onde entra, derruba a lavoura. A presença já é o alerta, não espere o número subir.
Galhas Meloidogyne incognitapresençaEspécie agressiva ao cafeeiro, comum em solos arenosos. Detecção confirmada já é decisão de manejo.
Lesões Pratylenchus coffeaepresençaEm ensaio controlado, o cafeeiro reduziu o crescimento já na menor densidade testada, por isso a detecção, por si só, conta como alerta.
Sobre o Pratylenchus brachyurus: apesar de comum em levantamentos de cafezais, o cafeeiro é mau hospedeiro dessa espécie — o nematoide multiplica pouco (baixo fator de reprodução) e não é considerado patógeno importante do café no Brasil (Nomura et al., 2024). Os nematoides-das-lesões que preocupam o cafeeiro são o P. coffeae e o P. jaehni, não o P. brachyurus.
Detalhe técnico e fontes
M. exigua: até 45% de perda em campo (noroeste do RJ), em lavoura com mais de 5 anos e bem conduzida; nessa condição o limiar medido é de 3 J2/100 cm³ (= 6/200 cm³) (Barbosa et al., 2004, único estudo de campo com limiar de solo; Silva et al., 2007, e o Boletim IB 32/2018 apenas o citam). As faixas da tabela (20 e 80 J2/200 cm³) vêm da curva de lavoura jovem do mesmo trabalho (10 e 40 J2/100 cm³): em lavoura velha o dano começa bem antes, a partir de 6/200 cm³. As densidades publicadas já trazem o fator de correção do método de extração, então não são diretamente comparáveis a uma contagem bruta de rotina. Perda média por nematoides no café: cerca de 15% no mundo e 20% no Brasil (Boletim IB, médias estimadas, sem estudo de origem).
M. paranaensis: a mais agressiva por planta. Em conilon (ES), no clone altamente suscetível 1V, reduziu 45% o stand e até 85% a produção; já o clone 12V, embora suscetível, manteve produção adequada (72 sacas/ha), ou seja, a suscetibilidade varia muito entre clones (Lima et al., 2019). Ocorrência no sul de MG associada a focos de mortalidade (Salgado et al., 2015). Os trabalhos relatam a perda associada à presença da espécie, sem uma densidade de solo correspondente: daí o critério de tratar a detecção confirmada como alto risco.
P. coffeae / P. jaehni: o Instituto Biológico (2018) afirma que são tão agressivas ao café quanto M. incognita. Café muito intolerante a P. coffeae: em casa de vegetação (Seinhorst), há redução de crescimento já na menor densidade testada, 333 nematoides/planta, e morte em densidades altas (Kubo et al., 2003). A unidade é inóculo POR PLANTA, em vaso: mede a resposta da planta, e não corresponde a uma densidade de solo de campo. É o que sustenta o critério de tratar a presença como alerta.

Algodão

Contagem por 200 cm³ de solo. classificação orientativa

Nematoide BaixoMédio
atenção
Alto
dano provável
O que observar
Galhas Meloidogyne incognitaaté 50J2/200 cm³50 a 100J2/200 cm³acima de 100J2/200 cm³Reboleiras de plantas fracas, raiz com galhas. Costuma vir junto com outros.
Reniforme Rotylenchulus reniformisaté 300nematoides/200 cm³300 a 600nematoides/200 cm³acima de 600nematoides/200 cm³Concentra-se mais fundo (20 a 40 cm): coletar só a camada de cima subestima. Comum em MT.
Lesões Pratylenchus brachyurussem faixaEm campo, a densidade não prediz a perda. O algodão tolera, mas multiplica o nematoide para a cultura seguinte. Acompanhe pela raiz e pelo histórico.
Uma observação importante: no algodão, estudos de campo em Mato Grosso mostraram que a contagem sozinha não prediz a perda. Uma planta com raiz vigorosa aguenta mais nematoide, e contagem alta com raiz boa não significa o mesmo que contagem alta com raiz destruída.
Detalhe técnico e fontes
M. incognita: cerca de 100 espécimes/200 cm³ (= 50/100 cm³), "população de dano baixa, ao redor de cem indivíduos" (Galbieri & Asmus, 2016); a extensão do Arkansas usa 50/100 cm³ (amostra de junho a novembro). É compilação de especialistas; a equação, a época e o método de extração não constam da publicação.
R. reniformis: a referência mais citada é de cerca de 600/200 cm³ (IMAmt, 2016). Em campo brasileiro, entre 250 e 2.000/200 cm³ a resposta medida é errática; concentra-se a 20 a 40 cm de profundidade. Reboleiras com mais de uma espécie renderam 23 a 35% menos que áreas sadias (Silva et al., 2014).
P. brachyurus: estudos de campo no MT avaliaram a relação entre densidade e produtividade e não encontraram correlação (Machado et al., 2006). Em casa de vegetação (Machado, Ferraz & Inomoto, 2012), o dano só apareceu a partir de 30.000/400 cm³, densidade acima da observada em lavoura.

Cana-de-açúcar

Em cana o mais informativo é a contagem na raiz (por grama), aos cerca de 6 meses, não o solo do plantio. classificação orientativa

Nematoide BaixoMédio
atenção
Alto
dano provável
O que observar
Lesões Pratylenchus zeaeaté 50nematoides/g de raiz50 a 100nematoides/g de raizacima de 100nematoides/g de raizEm variedade suscetível, a partir do Médio já pode reduzir a produção.
Galhas Meloidogynesem faixaacima de 8J2/g de raizNa pré-amostragem de soqueira, acima de 8 J2/g de raiz já indica nível alto. Em campo, a perda chegou a 22% em cultivar suscetível.
Detalhe técnico e fontes
P. zeae: em pré-amostragem de soqueira aos 6 meses (por 50 g de raízes): abaixo de 2.500 (= 50/g) o acréscimo com nematicida é de cerca de 5 t/ha (inviável); entre 2.500 e 5.000 (50 a 100/g), cerca de 10 t/ha; acima de 5.000 (mais de 100/g), mais de 15 t/ha (Novaretti, 1997). Magnitude aos 6 meses (Novaretti & Reis, 2009): cada 1.000/50 g corresponde a −1,1 t/ha (aos 2 meses após o corte esse coeficiente sobe para −4,0 t/ha). Os valores "1.870" e "4.790/50 g" de Dinardo-Miranda et al. (1996) NÃO são limiares: são médias populacionais de genótipos em subparcelas não tratadas, e o próprio trabalho classificou o genótipo de 4.790 como tolerante e o de 1.870 como intolerante, de modo que não servem como faixa de risco.
Meloidogyne: na pré-amostragem de soqueira, mais de 400 J2/50 g de raízes (= 8/g) de M. incognita indicaram nível populacional alto (Novaretti, 1997). Em CAMPO (SP, solo arenoso, cana planta), sob infestação natural de M. javanica + P. zeae, a perda chegou a 22% (cv. IACSP96-7569) e 17% (cv. CTC20), estimada pela resposta ao nematicida; média de 10% ou mais, com várias cultivares tolerantes (Dinardo-Miranda, Fracasso & Miranda, 2019). O percentual medido é o efeito conjunto das DUAS espécies e corresponde aos máximos de duas cultivares específicas: aplica-se a essa condição, e não como faixa geral. A perda foi estimada pela resposta ao nematicida, sem uma densidade correspondente.

Hortaliças

Meloidogyne é muito prejudicial à maioria das hortaliças. A sensibilidade varia entre culturas — o número que o tomate ainda tolera pode ser grave no pepino —, mas todas sofrem com as galhas.

Galhas (Meloidogyne incognita), por 200 cm³ de solo. A tabela traz um único valor por cultura: o ponto em que o dano começa. classificação orientativa

CulturaNematoideDano começa a partir deO que observar
TomateMeloidogyne incognita180J2/200 cm³A mais tolerante do grupo, mas isso depende da cultivar: há variedades com resistência (gene Mi) e outras sem. Galhas na raiz e murcha nas horas quentes.
PimentãoMeloidogyne incognita80J2/200 cm³Reboleiras de plantas atrofiadas, com galhas na raiz.
BerinjelaMeloidogyne incognita11ovos+J2/200 cm³Muito sensível, perde cedo. Galhas volumosas na raiz, plantas amareladas e paradas.
Melão / melancia / abobrinhaMeloidogyne incognita3 a 11J2/200 cm³Sensíveis. Reboleiras de plantas que murcham ao meio-dia; raiz com galhas. Pior em solo arenoso.
PepinoMeloidogyne incognitapresençaO mais sensível do grupo: o limiar é menor do que o laudo consegue detectar, então qualquer detecção já preocupa.
CenouraMeloidogyne incognitapresençaO prejuízo é de qualidade: raiz bifurcada, com galhas e pelos, perde valor comercial mesmo com poucos nematoides.
Detalhe técnico e fontes
Hortaliças (M. incognita): limites de tolerância pelo modelo de Seinhorst, compilados por Talavera-Rubia et al. (2022) da literatura (microparcelas na Itália, cultivo protegido na Espanha, ensaios nos EUA e no Irã), em /100 cm³ e dobrados aqui para /200 cm³: tomate 92 (→184; mas a literatura-fonte varia de 2 a 400/100 cm³, e 92 é a média); pimentão 41 (→82; faixa 8 a 74); berinjela 5,4 (→11), em ovos+juvenis/cm³ no original italiano (Di Vito, Greco & Carella, 1986), e não J2; pepino 0,1 (abaixo da detecção). Como a fração de ovos domina no solo, um laudo que conta só J2 subestima o risco na berinjela. Cenoura: o limiar de qualidade por Seinhorst (Wesemael & Moens, 2008) fica abaixo do que a contagem de rotina resolve, por isso a leitura é "presença". Esse valor foi obtido com M. chitwoodi, de clima temperado; para as espécies tropicais (M. incognita, M. javanica), a Embrapa Hortaliças relata perdas de 20 a 100%, com dano de formato mais severo quando a infecção ocorre até 35 dias após a emergência (Pinheiro, Carvalho & Vieira, 2010).

Frutas

Nas fruteiras, o laudo útil costuma ser o de raiz (por grama), não o de solo. E, na maioria delas, a leitura não é uma faixa numérica: a presença já é a decisão.

Atenção em citros: as duas referências abaixo contam estágios diferentes do nematoide, não some uma com a outra. classificação orientativa

CulturaNematoideLeituraO que observar
CitrosTylenchulus semipenetransacima de 1.400fêmeas/g de raizPopulação elevada (referência da Califórnia). É o principal nematoide dos citros, causa o “declínio lento”.
CitrosTylenchulus semipenetransacima de 4.000juvenis/g de raizAssociado a declínio (referência de Israel). Conta juvenis, estágio diferente das fêmeas acima.
CitrosPratylenchus jaehnipresençaÉ o nematoide-das-lesões dos citros no Brasil. Trate a detecção como alerta.
GoiabaMeloidogyne enterolobiipresençaÉ a espécie mais agressiva. Derrubou a goiabicultura de regiões inteiras. Não espere população alta: a presença já é o risco.
BananaRadopholus similisacima de 25R. similis/g de raizEm banana o laudo útil é o de RAIZ, não o de solo. Causa o tombamento da bananeira.
BananaMeloidogynesem faixaProvoca deformação e engrossamento das raízes, com galhas ocasionais nas radicelas. Não há valor de corte publicado; avalie pela intensidade do sintoma na raiz.
Detalhe técnico e fontes
Citros — T. semipenetrans: perdas relatadas de 10 a 30% conforme o nível de infestação (Verdejo-Lucas & McKenry, 2004). Limiares diagnósticos, ambos por grama de raiz: acima de 1.400 fêmeas/g = nível alto na Califórnia em maio e junho (acima de 1.100 em fevereiro a abril), Becker & Westerdahl, UC IPM; e acima de 4.000 juvenis/g = nível crítico para declínio em Israel (Cohn, 1969, citado em Verdejo-Lucas & McKenry, 2004). São ESTÁGIOS diferentes (fêmea × juvenil), mesmo denominador (g de raiz): não comparar nem somar os dois números. Gabia, Santos & Wilcken (2016) mostraram que a contagem isolada não previu a perda; cruze com sintoma e histórico.
Citros — P. jaehni: nematoide-das-lesões dos citros descrito no Brasil, separado de P. coffeae em 2001 (Inserra et al.). O guia de citros da UF/IFAS (Flórida) recomenda tratar a detecção de qualquer nematoide-das-lesões (P. coffeae) ou de Radopholus similis como dano sério.
Goiaba — M. enterolobii: declínio da goiabeira = ação sinérgica do nematoide com Fusarium solani (hoje Neocosmospora falciformis): Gomes et al. (2011); Veloso, Câmara & Souza (2021). Impacto econômico direto estimado em R$ 112,7 milhões e cerca de 3.700 empregos rurais em cinco estados (RJ, RN, CE, PE e BA); só nos perímetros irrigados da CODEVASF (Petrolina-PE e Juazeiro-BA), R$ 108,3 milhões e cerca de 3.650 empregos (Pereira et al., 2009). Os trabalhos documentam a perda associada à presença da espécie, sem uma densidade correspondente: para M. enterolobii, a detecção confirmada já é decisão de manejo. É polífaga (goiaba, hortaliças e outras).
Banana: na bananicultura equatoriana, recomenda-se nematicida quando Radopholus similis passa de 2.500/100 g de raízes em amostra de rebento seguidor (ou 10.000/100 g entre planta-mãe e rebento), limiar por espécie, não "total" (Aguirre et al., 2016, citando recomendação do INIAP). Bananais comerciais convivem com 11.000 a 12.000/100 g. Meloidogyne: praga importante, com deformação e engrossamento das raízes, sem um valor de corte consolidado (Araya, 2004).

Pastagem (Brachiaria, Panicum)

Em pastagem, a contagem não diz se o pasto vai bem ou mal. Faltam trabalhos que relacionem a densidade de nematoides à condição da pastagem; num levantamento de campo, Carvalho et al. (2013) mediram a população e não encontraram relação entre a quantidade de nematoide e a condição do pasto (bom, médio ou ruim). Por isso o laudo de pastagem serve para escolher a próxima forrageira, não para “aprovar” ou “reprovar” a área.
CapimMultiplica o nematoide?Uso em área infestada
Panicum 'Tanzânia', 'Mombaça'; 'Mulato' Pratylenchus brachyurusmultiplica muitoevitar em área infestada, aumenta a população
Brachiaria 'Marandu', decumbens Pratylenchus brachyurusmultiplicahospedeira: não reduz a população
Brachiaria dictyoneura Pratylenchus brachyurusmultiplica poucoo menor risco, mas não reduz a população

Importante: nos ensaios de hospedabilidade, todas essas forrageiras multiplicaram o nematoide em algum grau; a diferença está em quanto. classificação orientativa

Detalhe técnico e fontes
O que o estudo de referência mediu: as faixas desta seção são densidades de campo, e não níveis de dano econômico: a literatura brasileira de pastagem tropical relaciona densidade a hospedabilidade, não a perda de forragem ou a ganho animal. Densidades de campo de referência (Terenos-MS): P. brachyurus 87 a 311 e P. zeae 1 a 61 por 10 g de raiz; no solo, 0 a 8 e 1 a 39 por 200 cm³. A condição visual da pastagem NÃO se relacionou com a densidade (Carvalho et al., 2013).
Hospedabilidade (casa de vegetação): Panicum 'Tanzânia'/'Mombaça' e capim 'Mulato' = fator de reprodução ALTO; B. dictyoneura = o menor (FR de 1,0 a 1,3, ainda >1). Todas as forrageiras avaliadas apresentaram FR > 1, ou seja, multiplicaram o nematoide (Inomoto, Machado & Antedomênico, 2007).

A análise por PCR: o que é e para que serve

O que a PCR responde. A contagem do laudo identifica o nematoide até o gênero: Meloidogyne, Pratylenchus, Rotylenchulus e assim por diante. A PCR vai um passo adiante e identifica a espécie. É uma análise qualitativa: responde qual espécie está presente na amostra, e não quantos indivíduos existem. No LAMAM, é realizada principalmente para espécies de Meloidogyne, com marcadores moleculares específicos para cada espécie (Zijlstra, Donkers-Venne & Fargette, 2000; Randig et al., 2002).

Por que isso muda a decisão. Dentro de um mesmo gênero, as espécies diferem em agressividade, em faixa de hospedeiros e na reação das cultivares. Resistência de cultivar e de porta-enxerto é espécie-específica (Roberts, 1992), e a mesma planta de rotação pode ser hospedeira de uma espécie e não hospedeira de outra. Por isso a PCR não substitui a contagem: as duas se completam: a contagem diz quanto, a PCR diz qual.

Que material serve para a análise.

MaterialOrigemObservação
Fêmeas desejável quando há galhasExtraídas de raízes com galhasHavendo raízes com galhas, a fêmea jovem em postura é o material desejável: além do PCR, permite a identificação pelo fenótipo de esterase.
Juvenis (J2) alternativaRecuperados da amostra de soloQuando não há raiz com galha, a identificação por PCR também pode ser feita a partir dos juvenis extraídos do solo.
Dissecação de raiz de cafeeiro expondo a fêmea de <i>Meloidogyne</i>
Dissecação da raiz sob estereomicroscópio até expor as fêmeas, em cafeeiro.
Dissecação de raiz de jiló expondo fêmeas de <i>Meloidogyne</i>
Dissecação da raiz sob estereomicroscópio até expor as fêmeas, em jiló.
Fêmea de <i>Meloidogyne</i> extraída, na ponta da agulha
Fêmea extraída, na ponta da agulha, de onde sai o DNA.
Gel de eletroforese com as bandas amplificadas e o marcador de peso molecular
A leitura do resultado: eletroforese em gel, com o marcador de peso molecular nas laterais.
Sempre que possível, envie raízes com galhas junto com o solo: havendo galhas, as fêmeas são o material desejável para a identificação, e a mesma amostra ainda serve para a contagem.

Nematoides das galhas no cafeeiro: sintomas e identificação por PCR

O cafeeiro é parasitado principalmente por Meloidogyne (nematoides das galhas): M. exigua é a mais disseminada no Brasil, enquanto M. paranaensis e M. incognita são as mais agressivas.

Na raiz, o sintoma muda conforme a espécie, e é isso que define o que coletar. M. exigua parasita as radicelas e forma as galhas clássicas, pequenas e arredondadas, em série ao longo da raiz fina. Já M. paranaensis e M. incognita penetram em raízes mais grossas, e o sintoma característico é a cortiça: o córtex engrossa, fendilha e sofre descorticamento, desprendendo-se em placas e expondo o tecido interno, com poucas ou nenhuma galha nítida.

Galhas de <i>Meloidogyne exigua</i> em radicelas de cafeeiro
Galhas clássicas de M. exigua: pequenas e arredondadas, em série ao longo da radicela.
Raiz grossa de cafeeiro com cortiça, fendilhamento e descorticamento — detalhe ampliado
Raiz grossa com cortiça: fendilhamento longitudinal do córtex e descorticamento, no detalhe ampliado.

Na parte aérea, o parasitismo — sobretudo por M. paranaensis e M. incognita — se traduz em amarelecimento e desfolha intensa, em reboleiras de plantas de menor porte e em declínio. Vale percorrer a lavoura e registrar essas manchas antes de coletar.

Lavoura de café jovem com plantas atrofiadas e falhas em reboleiras
Lavoura jovem: reboleiras com falhas, desfolha intensa e plantas mortas.
Lavoura de café adulta em declínio, desfolhada, ao lado de plantas sadias
Lavoura adulta: desfolha intensa e declínio.
Colete o material certo: é ele que permite o diagnóstico. Como o sintoma difere entre as espécies, a amostra precisa conter a raiz que está doente: raízes grossas com cortiça (fendilhadas e descorticadas) quando houver suspeita de M. paranaensis ou M. incognita, e radicelas com galhas quando houver suspeita de M. exigua. Na dúvida, envie os dois tipos.

Por que a espécie importa no café. Uma cultivar ou porta-enxerto resistente costuma proteger contra uma espécie, mas não contra outra. Se a sua lavoura tem M. paranaensis e você planta um material escolhido para M. exigua, o cafezal continua desprotegido. Por isso, saber qual é a espécie pela PCR orienta a escolha certa do porta-enxerto e do manejo; a contagem por gênero, sozinha, não resolve essa decisão no café.

Material a coletar e enviar

Cada amostra reúne, aproximadamente, 500 g (ou 500 cm³) de solo + 50 g de raízes (radicelas), de pelo menos 20 subamostras por talhão de até 100 ha. Use as fotos abaixo como referência visual.

Saco de coleta do LAMAM preenchido com cerca de 500 g de solo
O saco do LAMAM mede 23 × 16 cm. O solo precisa preencher, no mínimo, 10 cm de altura do saco, como na foto.
Mão fechada cheia de radicelas de café
A quantidade ideal de raízes: uma mão fechada cheia de radicelas.
Saco de coleta do LAMAM com os campos de identificação
Envie a amostra identificada: proprietário, propriedade, município, talhão, data de coleta e a análise desejada.
PDF Guia de coleta e envio de amostras O passo a passo completo: coleta, acondicionamento e envio (6 páginas)

Referências

Os números desta página vêm de artigos científicos, teses, boletins técnicos e publicações de instituições de pesquisa.

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